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A obra Vagabond of the Western World de Luciana Alves Bonfim foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em dontfearthereaper1981.blogspot.com.

Desejados!!!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sessão divã

*entra na sala do(a) psicanalista e meio que deita, meio que senta no divã*

" ....




...



Então, seu psicanalista. O problema é o seguinte. Eu acho que eu estou começando a desenvolver alguma fobia social. É. Deve ser alguma coisa parecida com isso. Ou não. Esses dias assisti a uma reportagem sobre contrabando na fronteira do meu estado com o Paraguai. Eu simplesmente não consegui me manter calma vendo aquele bando de paraguaios carregando as muambas pra dentro dos caminhões. Se isso tem a ver com o fato de eu ter sido ameaçada de roubo duas vezes no mesmo dia e sob a mesma situação em Ciudad del Este... é... pode ser. O que me assustou foi ver o semblante daquelas pessoas. Elas não estão ligando pra nada, não estão nem aí pra gente. Se a gente vai morrer, viver... se a gente trabalha e sofre tanto quanto eles, não interessa. É por isso que eu acredito que terei um treco caso alguma dia eu volte para Foz do Iguaçu. Minhas pernas ficam bambas só de pensar em Foz, imagina só Ciudade Del Este (PY) e Puerto Iguazu (AR). Sinto nojo, sinto medo, muito medo. Nem os potes de um kilo de Ilolay, nem os potes super enormes de azeitona me consolam quando eu penso naquele lugarzinho argentino chinfrim. No máximo, vou até o Duty Free. Passar pela aduana, eu dispenso. Por que eu sinto medo. Eu não tinha esse medo em relação a Salto del Guairá, mais perto da minha casa. Mas a Janete voltou de lá dizendo que tá virando uma Foz do Iguaçu. Conclusão: só de pensar em ir pra lá me dá calafrios. Eu sei que compensa... aquelas bolsas lindas... aquelas makes lindas... aquelas coisas inúteis e lindas... todas ali sem imposto... e ao mesmo tempo aquelas pessoas na rua "vendendo meias" (leia-se "ou compre a meia, ou eu risco o seu carro")... aqueles marginaizinhos paraguaios vindo atrás de você, te xingando em guarani... Ah, é muito pra minha cabeça.

De repente, seu psicanalista, eu descobri que morro de medo. Não me empolgo mais nem um pouco quando alguém fala que vai ao PY. Por causa daquela situação em Ciudade Del Este, eu desisti do concurso pro Ministério da Fazenda. Bem melhor ser assaltado no Brasil do que no Paraguai, mas pra que eu vou ficar longe da minha família, me mudar talvez pra uma cidade grande e morrer de medo toda vez que eu voltar pra casa do trabalho? Eu morro de medo de andar sozinha de noite até aqui nesse buraco de cidade. Aliás, eu vivo com medo. Só de pensar que nesses bailões vai ter gente bêbada/chapada que não sabe o que faz, eu já fico com um nó na barriga. Não descanso enquanto meu irmão não chega dos bailes que toca mais pro norte do estado - lá dá briga de faca. Não saio de casa sem recomendar pra minha mãe que tranque as portas e janelas quando for deitar e/ou tomar banho. Não vou dormir sem antes verificar se está tudo mesmo fechado. E eu não era assim, seu psicanalista.

..."


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7 comentários:

Bonitas e bacanas disse...

Creeedo, que pavor.
Nào é de verade, né?


(Mas as makes..., ah, as makes)

Tbém adoro Cyanide e Happiness

Bjsss

Emerson disse...

então, na aula de hoje eu aprendi que essa sua fobia pode ser sintoma de um trauma reprimido em estado de tensividade.
Segundo o Professor, qdo o individuo passa por evento traumático com forte emoção (evento traumático emocionante) o consciente não consegue lidar com aquela emoção de tão foda de ruim q ela é, então joga lá pro inconsciente ("esquecimento"), mas a danada da emoção traumática tenta voltar a tona, para o consciente, entretando, é barrada pela resistencia, ai vem a tensividade. Qdo um evento traumático "emocionante" acontece o sujeito não será mais o mesmo, desenvolvendo toc's.
Aí a aula acabou, acho q a Pika pode continuar a explicação hehehe

Emerson disse...

ah, o Professor tbm citou a palavra Neurose

Shogun disse...

Esse seu sentimento é normal.

A sensação de insegurança é geral. Não importa onde se vive. E com esse bombaredeio diário de noticias sobre todo tipo de violência, é natural que agente se encolha. Muitas vezes nem precisa ter acontecido algo conosco. Basta sabermos que algum conhecido ou familiar passou por uma situação de perigo. Agente automáticamente sente que "se aconteceu com fulano pode acontecer comigo".

Eu trabalho a noite, pego uma das linhas de ônibus mais toscas do Rio. Eu saio no piloto automático ligado mas as vezes penso no risco de ter quer passar na frente da Rocinha. Já escapei de passar por lá várias vezes em horas que ocorriam confrontos entre policia e traficantes, ou traficas x traficas.

Mas eu como sou metido a revolucionário penso no seguinte: "se eu ficar em casa com medo. Eles vencem".

Que a minha sorte se mantenha assim...

...::: A Luciana :::... disse...

Se não, hein Saga... acho que só sabe o que é isso quem passou pela situação. Sentir o estômago na boca, não ver saída... puta merda... muito foda...

Emmer... e não é que a sua aula rendeu? rs

Van disse...

Eu xingarei os "mitãi" em guarani.

TE AMO.

Daniel disse...

Po, Lu, é sinistro mesmo isso, mas é o que o Saga falou, eu concordo. Se a gente for deixar de fazer as coisas para nós mesmos por causa disso todo mundo vai viver trancado dentro de casa pra sempre.
Acho que esse lado da violência, crimes, etc, é realmente real, mas se da importancia enorme.
E as coisas boas que acontecem? Isso ninguém bota na mídia, ninguém fala nada, acho que antes de tomar qualquer atitude todo mundo deveria ver os dois lados da moeda.
Tem muita coisa boa que acontece por aí, muita gente de bem que faz e luta pra melhorar as coisas e ninguém fala, ninguém da atenção. Sorte que essas pessoas não desistem por causa disso ou por ter medo.
É isso que penso, pelo menos.