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A obra Vagabond of the Western World de Luciana Alves Bonfim foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em dontfearthereaper1981.blogspot.com.

Desejados!!!

sábado, 7 de agosto de 2010

Dia dos pais III

É o terceiro dia dos Pais depois que o meu pai se foi.

"Se foi" é meio estranho de dizer, porque parece que ele quis ir. Mas acho que ele queria ter ficado mais um pouco. Se eu conseguisse dizer aos meus amigos e alunos, sem que os olhos enchessem d'água, o quanto eles precisam aproveitar esse tempo com os pais, eu diria. Mas é inevitável, então não digo. Escrevo. E sorte de quem ler e souber por em prática o conselho de alguém que não tem mais o pai fisicamente por perto e sabe a saudade que dá, e a dor no peito que se sente quando se lembra disso.

Deixa eu ver se eu consigo explicar: é, definitivamente, uns milésimos de segundo. Sério mesmo. Tão rápido que ás vezes alguém que está do seu lado nem conseguiria notar. De repente, você tá lá indo pra facul no busão, ou dirigindo pro supermercado, e a consciência da ausência chega sem avisar, a dor é lancinante e a gente se sente impotente - tudo em questão de milésimos de segundo. O que se segue depois, pelo menos no meu caso, é geralmente um sorriso. Se você me vir sorrindo do nada depois de uma sombra ter passado pelos meus olhos, então já sabe o motivo do sorriso. Sorrio porque ele foi tão amado e amou tanto, que nada ficou pra trás. Só saudade.

Mas me reservo o direito de ficar triste quando ele não está por perto nos aniversários e nos dias especiais. Me reservo o direito de olhar as fotos pela milésima vez, de contar as mesmas histórias pela milésima vez, de ouvir seus discos pela milésima vez.

Hoje a mãe me disse que quando eu nasci, ele não sabia muito bem o que fazer. Era frio, eu berrava no apartamento do hospital, e ele fechou os vidros da janela e a porta, ligou o chuveiro no quente pra "esquentar o quarto" e deixou a porta aberta... pfffffffkkkkkkkkkkkkkkk só o meu pai mesmo pra fazer uma burrice tão carinhosa e sem noção como essa kkkkkkkkkkkk.

Uma vez, a única em que eu apanhei de cinta do meu pai, ele voltou pra casa e me trouxe dois daqueles pacotinhos de pipoca do plástico rosa. Eu lembro direitinho, eu estava sentada do lado do degrau da porta, esperando ele voltar pra me fazer de coitadinha.

E quando a gente ia na sorveteria com ele, era uma alegria, porque ele sempre deixava a gente repetir o sorvete quantas vezes a gente quisesse até passar mal. Meu pai era tão simples, que acreditava que o único sorvete que não era feito com leite era o de morango - o favorito dele. "Pai, quer que a gente traga sorvete pro senhor?" e ele dizia "Só se for de morango, PORQUE NÃO TEM LEITE" kkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!

"Fernando, não vai dormir de cabelo molhado porque se não o cabelo vai apodrecer e você vai ficar careca!"

"Essa manga da camisa é muito apertada. Essa outra manga é muito longa. Essa outra camisa tem uma cor muito clara. Essa outra camisa tem cor muito escura. A gola dessa outra camisa é muito solta." Que tristeza pra escolhar uma camisa e dar de presente pra esse homem, por Deus! kkkkkkkkkkkk E como eu daria tudo pra poder escolher uma camisa pra ele ainda hoje!

"Não quero presente de Dia dos Pais" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk A velha ladainha do "só quero um abraço e o amor de vocês" kkkkkkkkkkkkkkkkk.

"Pai, olha o presente que a gente comprou pra você!" e entregava uma faca de pão embrulhada no papel do Mercadinho Nava kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Aimeldels, o que será que ele devia pensar nessas horas, enquanto agradecia a gente? kkkkkkkkkkkk Uma faca de pão de presente, comprada com o dinheiro dele kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

"Veja bem..."

"Sabe aquela música do Oitava? Oi... tava na peneira, oi... tava peneirando, oi... tava no namoro, oi.... tava namorando!"

"Sabe aquela música do Açucar? Adocica, meu amor, adocica... Adocica, meu amor, a minha vida!"

"Sabe aquela piada do  Um pra mim, um pra você? Então, vinha dois irmãos caminhando numa noite escura perto de um cemitério...."

"Para bailar La Bamba..."

"O pai não tá chorando, é que entrou um cisco no olho" no dia em que o Fernando tocou na primeira audição da escola de música, no dia em que o Fernando tocou o primeiro baile na Banda Miragem, nos dias em que eu passei nos vestibulares, no dia em que eu me formei no colégio e dancei a valsa com ele.

Não quero esquecer dessas coisas, por isso as escrevo. Minha mãe me disse que sentir saudade é uma coisa boa. Se a gente sente saudade, é porque alguma coisa deve ter valido a pena e deve ter sido boa. Eu gostaria de deixar saudade nas pessoas que fizeram, fazem ou farão parte da minha vida.

=]

3 comentários:

Anti-herói disse...

"Ra ta ta ta" (Era um garoto...)... seu pai, uma figuraça mesmo!

Camila Monteiro disse...

Puta merda, precisava me fazer chorar assim? ufa... pronto to melhor!!!
Ainda tenho meu pai e acredite to cada dia mais cuidando dele e mostrando o quanto o amo. Teu pai devia ser uma figura e acho que vai ser assim que vou me lembrar do meu quando ele precisar se ausentar um pouco.
Ai... larga de assunto triste...

Amei tua visita, quanto aos livros do André Vianco, li um monte deles, "A Casa", "Senhor da Chuva"(excelente) e "Bento", mas nao vi "Turno da noite. Sou suspeita... amo tudo que ele escreve!!! E quando se trata de livro.. tb me empolgo. Amo ler.

Beijao e Excelente noite pra vc!!!

ps: Fico on line o dia todo no gtalk, o bate papo do orkut ou do email do gmail... se puder, entra la pra gente conversar!!! Me adiciona la:
kmilla.monteiro@gmail.com

beijao... fui!

Bonitas e bacanas disse...

Luuuuu, que post M A R A VI L H O S O!!

Amei cada palavra, cada história.

hahaha, a do presente, eu já fiz igual...rs E com o dinheiro dele hahaha

Muito lindo o texto, Lu. Sinto muito por ele não estar mais aqui.

Bjsss