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A obra Vagabond of the Western World de Luciana Alves Bonfim foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em dontfearthereaper1981.blogspot.com.

Desejados!!!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Não é só uma tatuagem

Oi. Se você chegou até aqui pelo link do meu facebookson, significa que a gente se conhece. Talvez não pessoalmente, talvez sim. Mas se foi pela rede social, você provavelmente conhece as convicções que eu carrego comigo hoje em dia. Então, se você, por interesse, acaso ou acidente, acabar em outros posts deste mesmo blog, eu já peço de antemão: por favor, tenha paciência comigo. Entenda os posts como capítulos de um livro em que os personagens vão amadurecendo, aprendendo... se entendendo. Hoje eu sou quem sou porque passei por esses capítulos (alguns ridículos, outros menos). Por exemplo: eu já fui antifeminista. Pois é. Mas eu li. Eu vivi. Eu observei. Eu ouvi. Eu refleti. Eu aprendi. O que eu era há dez anos atrás eu provavelmente não sou mais. Ainda bem.

Mas você veio aqui por causa da tatuagem. Então deixa eu contar pra você a minha história. No final, talvez você entenda por que não é só uma tatuagem.

Desde pequena eu sabia que eu não me encaixava. Não tô falando isso pra ser a diferentona, a que não se encaixa. Tem gente que gosta de ganhar biscoito por ser diferentão, né? Só que é o seguinte: não é legal ser diferentona quando você tem pouca idade, é super tímida, gordinha, sardinhas no rosto, cabelo zoado, não consegue fazer amigos com facilidade, gosta de subir em árvore, ir pescar nos açudes do meu tio, jogar futebol etc. Ah sim, eu brincava de casinha também. Mas o legal era MONTAR a casinha. Depois que ela ficava pronta, não tinha mais graça fingir que a boneca era um nenê e "cuidar da casa". 

Não é legal ser diferentona porque, nessa idade, criança é fofa, mas cruel. E, que fique claro, crianças pequenas... e grandes. Daí que você ouve e sente um monte de coisa que fica guardado lá no fundo do seu coração. E a maneira como você vai trabalhando isso é quem você vai ser quando adulto. Ainda bem que, apesar do entorno, meus pais nunca me proibiram de ser quem eu era. Meu irmão nunca me xingou de "gorda". E eu cresci uma adolescente normal. Tímida, com todas essas coisas pra resolver dentro da cabeça, umas revoltas aqui, outras ali.

Até os doze anos, tava tudo mais ou menos normal. Amizade ainda era de infância. Depois dos treze, mano, que pesadelo. Ser diferentona ficou pior ainda, porque aí tinha que lidar com as meninas lindas da escola, os meninos lindos que só tinham olhos para as meninas lindas, aquela necessidade besta mas inerente da adolescência de ser aceito no grupo. Meu jeito de ser aceita era ser a inteligente da sala com quem todo mundo queria fazer trabalho junto. Inclusive as meninas populares e os meninos lindos. Nossa, como era legal.

Só que chega uma hora que você percebe, né. Pra determinadas coisas, você serve (se encaixa). Pra outras, não. Tinha gente que me zoava porque eu ficava na sala durante o recreio lendo os livros da coleção Vagalume. Eu não saía pras baladinhas na boatinha do clube. Eu não era convidada pras festinhas de aniversário.

Claro que eu tinha amigas. Várias. Dentro do nosso grupo, a gente era meio diferentona também. Então, a gente se entendia. Mas o que eu tô falando aqui é da minha jornada individual.

Chegou uma hora que esse desencaixe era tão evidente que eu não queria mais me encaixar mesmo. Não queria ser aquela que usava as amigas pra certas situações e pra outras, ignorava. Não queria estar com aqueles que debochavam dos outros.

No terceirão, eu me riscava com a lapiseira. Não porque eu era depressiva e queria morrer. Eu queria atenção? Provavelmente. Ninguém ligava ahahahaha. Mas me riscar e me marcar me fazia ainda mais diferente daquelas pessoas que EU NÃO QUERIA SER. Me riscar dizia coisas sobre mim que eu não tinha coragem ou não podia dizer.

E eu estava numa vibe bem rock and roll pesado. Todo mundo que eu não queria ser ouvia sertanejo, funk, axé, samba... E, apesar de ter passado por essas fases também, eu não queria saber daquilo não. Eu sentia que só o rock and roll me representava. Não as letras, necessariamente, mas a sonoridade agressiva. Eu não era agressiva, mas tinha tanta raiva de não sei o que, que só o rock and roll me acalmava por que a agressividade do som dizia o que eu sentia. E dá-lhe ouvir Kiss, Led Zeppelin, Iron Maiden, Metallica. Meu pai assinava Guitar Player e eu pirava naquele visual Head banger. Era diferente de tudo que eu via na cidade. Diferente de todo mundo que eu não queria ser. E tinha a Syoung. Vocês conhecem? Essa mesmo, da Casa dos Artistas. Que depois mudou o nome pra Syang. Ela era guitarristas do P.U.S. (Porrada Ultra Suicida) e a primeira referência feminina de headbanger que eu tive. E, olha só: cheia de tatuagem - e eu queria ser ela. Eu arrancava as páginas das Guitar Player do meu pai pra colar na capa dos meus cadernos. Todo mundo que eu não queria ser com caderno do Leonardo diCaprio e da Ana Paula Arósio. E eu com a Syoung na capa e Iron Maiden na contracapa. Kkkkkkk bons tempos.

Entre o terceirão e os dias de hoje, se passaram vinte anos. Muita coisa mudou em mim desde então. Eu tô mais aberta pra pessoas, eu aprendi a interagir. Eu peguei "a manha" da interação social. É só você saber o que as pessoas querem. E elas querem atenção. Receber atenção, não dar atenção. Porque dar atenção é muito mais difícil: tem que ficar ligado no que a pessoa tá te falando, tem que olhar nos olhos, pegar os detalhes, tem que se interessar genuinamente. Tire a prova: comece uma conversa com alguém. Pode ser no WhatsApp, no Messenger, no Tinder kkkkkkk. Enquanto você tá perguntando e fazendo a pessoa falar sobre ela, tá tudo legal. Dificilmente você encontra alguém que demonstra reciprocidade no interesse. Se você para de fazer perguntas, a conversa termina.

Mas isso é assunto pra um outro posto daqui a, sei lá, dois anos (a julgar pela frequência das minhas postagens nessa bodega kkkk).

Então eu tô lá, super interagindo com as pessoas. "Nossa, como  a Luciana é  extrovertida, sabe conversar".  Porém, internamente, eu continuo a mesma menininha tímida, sardenta, diferentona. Tem uma força dentro de mim que quer gritar e não pode porque foi socializada assim.

Não vão achar que eu me sinto uma coitadinha por causa disso. Pelo contrário. Eu sou mais forte por causa disso. Por ter essa consciência de quem eu sou. Hoje, eu consigo ter orgulho de quem eu sou.

Aí é que entram as tatuagens. Eu sempre soube que teria uma tatuagem. Pequenininha. Discreta. Mas teria. Ouvia as pessoas dizerem sobre o a"caráter" das pessoas tatuadas... "maloqueiros, vagabundos, bandidos, biscates, pecadores" ahahaahaha. Pe.ca.do.res. Ê bando de gente hipócrita kkkkkkkk.

Tinha algumas idéias desde o ensino médio e não conseguia me autoconvencer dessas ideias. Queria muito símbolo do Jimmy Page. Queria muito a logo do Kiss (kkkkkkkkkkkk). Mas nada de me convencer. Foi por isso que eu fiz a minha primeira tattoo apenas com 30 anos. Porque não podia ser qualquer coisa. Tinha que ter um sentido. Tinha que ter um propósito.

Não vão achar que eu desprezo quem faz tatuagem por estética ou jovem demais. Mas entendam que, pra mim, foi assim que funcionou.

Minha primeira tattoo foi um clichê tão grande, mas tão grande, que hoje eu dou risada. Mas na época, tinha que ter um sentido enorme, e só o símbolo do infinito parecia abarcar tudo o que eu sentia pela minha mãe, meu pai e meu irmão. Então fui lá fazer o infinito pequetitinho que era pra não desistir de dor no meio do processo.

Minhas segundas tatuagens foram dois lacinhos atrás das coxas gordinhas. Além da estética, eu curto demais rockabilly e os lacinhos foram uma homenagem aos laços familiares e de amizade que eu tinha e ainda tenho. Nesses laços eu levo nomes que eu jamais vou esquecer.

Depois, eu pus na cabeça que eu queria porque queria a madrasta da Branca de Neve. Mas só a madrasta, sem a Branca, não fazia sentido. Quando eu comecei a ler mais sobre meu signo (aí ó a diferentona racional que lê sobre signos), foi que eu vi um significado entre esse desejo de ter na pele dois personagens opostos: a boa e a má, a amável e a detestável, a que todos amam e a que todos evitam. Gêmeos, né, gente. Duas pessoas em uma só. Essa "instabilidade" que gera uma angústia em você, de não saber por que naquele momento você ama, mas depois odeia. Quer, mas não quer. "Vamo na festa/não quero ir mais". Puta que pariu, como isso cansa. Mas entender isso foi bem importante. De modos que tooooooome dor de tatuagem. 

Mas isso só não era o bastante. Chegou a hora em que essa compreensão veio mais elaborada. Sempre ouvi que eu era/sou nervosinha. Que, quando se tratava de justiça, eu sofria demais e discutia demais me esquentava demais, enfim... fervia demais... Por outro lado, algumas pessoas só conhecem meu lado docinho. Gêmeos de novo. Foi então que eu precisei ter na pele um lembrete de quem eu sou. Eu queimo de raiva, mas eu me derreto de amor. Então vamos de coração pegando fogo, com uma espada que representa o que eu mais prezo, e pelo que eu mais brigo: justiça.

Tava bom pra quem queria só uma tatuagem pequeninha e discreta? Não. Eu comecei a entender que essa era uma forma de expressar quem eu sou, já que eu não conseguia dizer, não conseguia falar sobre.

A pessoa que eu era antes e depois da minha graduação e mestrado e as pessoas que estiveram comigo nessa jornada... eu as levo, todas, no braço esquerdo. Eu olho pra trás pra não esquecer do passado, mas eu olho pra frente com coragem, porque agora eu sei, bem melhor do que antes, quem eu sou. E sempre vou ter um farol pra me guiar nessa eterna viagem de conhecimento, que não vai me deixar esquecer quem eu fui, de onde eu venho e quem eu trago comigo. Esse farol vai sempre me trazer de volta pra minha essência e pra quem eu amo.

E o amor que eu sinto pela minha família é tão grande, que aquele infinito pareceu pequeno demais pra esse amor. Então, veio a âncora com as quatro rosas: minha mãe, meu pai, meu irmão e eu. É um amor que ultrapassa qualquer coisa, qualquer distância, qualquer tempo. E tá lá, no meu braço direito, pra eles verem sempre que puderem e quiserem e se lembrarem desse amor que eu tenho por eles.

E então, tem essa consciência de ser mulher e de tudo que é construído ao redor da nossa feminilidade. De tudo o que eu passei por não me "encaixar". Por ser menina, mas ser gordinha. Por ser menina, mas gostar de jogar futebol. Ser menina e não brincar de boneca o tempo todo. Ser menina e ser considerada fracote. Ser menina e subir em árvore até os 15 anos. Ser menina e não conseguir ajeitar os cabelos como uma princesa.... E eu já estava em um processo de auto-aceitação e empoderamento (que ainda tá acontecendo e vai levar muito tempo)... Já estava em contato com histórias de mulheres fortes. Mulheres diferentonas. Mulheres corajosas. Então, agora, eu levo algumas delas comigo no braço esquerdo: Marie Curie, Frida Kahlo, Malala, Joan Jett. E vou levar ainda mais delas comigo, pra lembrar todo dia de como eu não preciso me encaixar pra ser mulher e pra ser aceita.

Então, galere, é por tudo isso que NÃO É SÓ UMA TATUAGEM. É quem eu fui e sou. É uma maneira de uma pessoa tímida se expressar. Uma maneira de me fazer e me mostrar diferente, de ter orgulho da minha diferença. É uma consciência, uma coisa abstrata, que se torna concreta na pele. Que fala mais do que a minha voz.

E é por isso que eu respeito quem tem tatuagem. Porque eu sei que aquilo não é só um desenho. Ali tem uma história. E é por isso que eu não me incomodo com as pessoas que pedem o que a tattoo significa. Eu gosto de falar. Ajuda a desmistificar essa história de que tatuagem é coisa de bandido, de vadia. Acho bem desnecessário debochar de alguém que pergunta o significado da sua tatuagem. Só reforça estereótipos errados. Mas isso é de cada um, né. Paciência.

Só sei que não é só uma tatuagem.

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